Política
06 Novembro de 2022 | 12h07

Reunião define mecanismo de concertação para superar a crise entre a RDC e Rwanda

A reunião de Luanda, que juntou, ontem, os chefes das diplomacias de Angola, Téte António, da República Democrática do Congo (RDC), Christophe Lutundula, e do Rwanda, Vicent Biruta, propôs a manutenção do mecanismo de diálogo e concertação política entre as autoridades dos dois países, como via para ultrapassar a crise que opõe as partes.

A informação consta do comunicado final da reunião, que teve lugar na sede do Ministério das Relações Exteriores e durou todo o dia, apresentado pelo chefe da diplomacia angolana, no final da audiência conjunta que o Presidente da República, João Lourenço, concedeu, à noite, aos representantes da RDC e do Rwanda, na Cidade Alta.

Téte António referiu que o comunicado destaca, ainda, a definição de um cronograma para acelerar a implementação do referido roteiro e os compromissos assumidos pelas partes, no quadro da reunião da Comissão Conjunta Permanente entre a RDC e o Rwanda, realizada em Luanda, nos dias 20 e 21 de Julho deste ano, cujos aspectos, como sublinhou, foram tidos em conta num documento preparado pela cimeira.

Acrescentou que ficou acordado, igualmente, o desdobramento imediato do Mecanismo de Verificação Ad-Hoc, em Goma, cidade da RDC, devendo os chefes dos Serviços de Inteligência prosseguirem com as discussões, de forma a se implementar a manutenção do mecanismo de diálogo e concertação política entre as autoridades dos dois países.

"Os ministros comprometeram-se em prosseguir os esforços para uma evolução encorajadora no terreno e preparar a próxima cimeira ", salientou Téte António. O ministro das Relações Exteriores angolano referiu que a reunião tripartida propôs a realização de encontros de coordenação, a todos os níveis, entre o processo de Luanda e o de Nairobi, tendo recomendado à mediação a efectuar diligências necessárias, neste sentido.

Téte António disse que os ministros dos Negócios Estrangeiros da RDC e do Rwanda agradeceram o Governo e o povo angolano. Os diplomatas apresentaram os agradecimentos ao Chefe de Estado, João Lourenço, que preside, neste momento, a Conferência Internacional sobre a Região dos Grandes Lagos (CIRGL), pela disponibilidade e engajamento neste processo.

"Transmitiram a mensagem dos homólogos da RDC e do Rwanda, que renovaram a confiança na sua mediação”, salientou o ministro Téte António. A reunião tripartida, foi realizada a convite do Governo, no âmbito da mediação angolana para a normalização das relações bilaterais, na sequência da deterioração da crise de segurança no Leste da RDC, bem como no restabelecimento de um clima de confiança entre os dois países. 

 

Audiência com Chefe de Estado

O Chefe de Estado, João Lourenço, concedeu uma audiência conjunta aos ministros dos Negócios Estrangeiros da RDC e do Rwanda, na Cidade Alta, com quem analisou o clima de tensão entre os dois países. A reunião tripartida ministerial, que foi antecedida pelo encontro dos Serviços de Inteligência Externa e de Segurança Militar, teve como objectivo principal relançar o diálogo entre as autoridades da RDC e do Rwanda, assim como retomar o processo de implementação do Roteiro de Luanda, de 6 de Julho deste ano.

Ao intervir, quarta-feira última, na Reunião da Mesa da Assembleia da União Africana (UA), realizada por videoconferência, o Presidente João Lourenço considerou preocupantes os acontecimentos na fronteira entre a RDC e o Rwanda e insistiu que o diálogo é a única via para as partes ultrapassarem o actual clima de tensão.

"As partes devem dialogar”, destacou o Presidente João Lourenço, reconhecendo, entretanto, não haver, neste momento, ambiente para a RDC e o Rwanda dialogarem a nível de Chefes de Estado.

Na ocasião, o Chefe de Estado manifestou-se satisfeito pelo facto de se dar mais um passo para a solução deste conflito, que, como disse, coloca em lados opostos dois países irmãos.

O Presidente João Lourenço apelou à conjugação de esforços para pôr cobro à crescente tensão que se verifica entre os dois países. Disse ter conhecimento que o embaixador do Rwanda na RDC foi expulso pelas autoridades de Kinshasa.

Após lamentar a situação, informou que a RDC está "muito sentida” com o que está a acontecer no seu próprio território, tendo exortado, por isso, à máxima contenção nas medidas a tomar pelos dois países. "A porta do diálogo deve estar sempre aberta a todos os níveis (serviços de inteligência, militares, diplomacia e dos próprios Chefes de Estado”, referiu, na altura.

Angola preside à Conferência Internacional da Região dos Grandes Lagos (CIRGL), bloco geográfico ao qual pertence o Congo Democrático. Nessa condição, o Chefe de Estado angolano tem levado a cabo várias iniciativas para o alcance da paz em vários pontos do continente. A subida da tensão entre os vizinhos RDC e o Rwanda, países dos Grandes Lagos, levou o Presidente da República Democrática do Congo a Angola no início do mês de Junho passado.

A tensão entre a RDC e o Rwanda aumentou nos últimos meses, após o reinício, em Março, dos combates entre o exército da RDC e o movimento M23, que segundo as autoridades de Kinshasa é apoiado pelo país vizinho.

  Serviços de Inteligência avaliam situação no terreno

Delegações dos Órgãos dos Serviços de Inteligência de Angola, da República Democrática do Congo e do Rwanda, avaliaram, ontem, em Luanda, a situação na fronteira comum, onde se registaram movimentações de forças que aumentaram o clima de tensão entre os países vizinhos.

A reunião de alto nível dos Serviços de Inteligência foi presidida pelo ministro de Estado e Chefe da Casa Militar do Presidente da República, general Francisco Furtado, e contou com a participação do director dos Serviços de Inteligência Externa de Angola (SIE), do administrador geral da Agência Nacional de Inteligência da RDC (ANR), do secretário-geral dos Serviços de Segurança e Inteligência Nacional do Rwanda (NISS) e do comandante do Mecanismo ad hoc de Verificação.

O Chefe de Estado e Presidente em Exercício da Conferência Internacional sobre a Paz na Região dos Grandes Lagos, João Lourenço, anunciou que a reunião de Luanda, realizada ontem, foi acordada com a RDC e o Rwanda com o propósito de "das partes aferirem, do ponto de vista técnico, o que está realmente a acontecer no terreno”.