COVID-19
26 Julho de 2021 | 11h49

Mortes podem ser dez vezes superiores à contagem oficial

O total de mortes na Índia devido à Covid-19 pode ser 10 vezes superior aos dados oficiais, ou seja, de vários milhões e não de milhares, convertendo-a na pior tragédia da Índia moderna, segundo um estudo.

O documento, publicado por Arvind Subramanian, antigo conselheiro económico do Governo indiano, e dois investigadores do Centro para o Desenvolvimento Global e da Universidade de Harvard, calcula que o excesso de mortes - a diferença entre os óbitos registados e os que seriam esperados em circunstâncias normais - ronde entre três e 4,7 milhões entre Janeiro de 2020 e Junho de 2021.

Os autores do estudo afirmam que, apesar de não ser possível determinar um número exacto, "é provável que (o total de mortes) seja de uma magnitude superior à contagem oficial".

O relatório aponta que a contagem oficial pode ter deixado de fora mortes ocorridas em hospitais sobrecarregados, especialmente durante a devastadora segunda vaga da pandemia, na primeira metade do ano.

"É provável que o verdadeiro número de mortes seja na casa de vários milhões e não das centenas de milhares, o que torna esta tragédia humana indiscutivelmente a pior da Índia, desde a partição e a independência", pode ler-se no estudo, citado pela agência de notícias Associated Press (AP).

Em 1947, a partição do Império Britânico da Índia, que deu origem a dois Estados independentes (a Índia, maioritariamente hindu, e o Paquistão, muçulmano), levou à morte de cerca de um milhão de pessoas, resultantes de massacres entre hindus e muçulmanos.

O estudo recorreu a três métodos de cálculo: dados do sistema de registo civil, que anota nascimentos e mortes em sete estados, testes de sangue que mostram a prevalência do vírus na Índia, juntamente com as taxas globais de mortalidade devido à Covid-19, e um inquérito económico a perto de 900.000 pessoas, realizado três vezes por ano.
Os investigadores analisaram as mortes provocadas por todas as causas e compararam esses dados com a mortalidade em anos anteriores, um método considerado preciso.

Os autores do estudo alertaram, no entanto, que a prevalência do vírus e as mortes por Covid-19 nos sete estados analisados podem não se reflectir de igual forma por toda a Índia, uma vez que o vírus pode ter-se propagado mais em estados urbanos que rurais e que a qualidade dos cuidados de saúde varia muito no país.

O especialista Jacob John, da faculdade de medicina Christian Medical College, em Vellore, no sul da Índia, disse à AP que o relatório sublinha o impacto devastador que a Covid-19 teve no mal preparado sistema de saúde indiano.
"Esta análise reitera as observações de jornalistas de investigação destemidos que apontaram a enorme subavaliação das mortes", disse Jacob. O relatório também estima que cerca de dois milhões de indianos terão morrido durante a primeira vaga de infecções, no ano passado.

No documento, sublinha-se que não "perceber a escala da tragédia em tempo real", nessa altura, pode ter "criado uma complacência colectiva que levou aos horrores" da devastadora segunda vaga, que atingiu o pico em meados de Maio, com mais de 400 mil novos casos por dia.

Nos últimos meses, alguns estados indianos reviram em alta o número de mortes provocadas pela Covid-19, suscitando preocupações de que muitas não tenham sido registadas oficialmente.

Vários jornalistas indianos também publicaram números mais elevados em alguns estados, recorrendo a dados governamentais. Segundo dados do Governo indiano, a Índia registou 414.482 mortes desde o início da pandemia, o que faz dela o terceiro país com mais óbitos causados pelo coronavírus SARS-CoV-2, a seguir aos Estados Unidos e Brasil.
A Índia é o segundo país do mundo com mais casos de Covid-19, depois dos EUA, contabilizando mais de 31 milhões de infeções desde o início da pandemia, de acordo com o último balanço da Universidade norte-americana Johns Hopkins.