Sociedade
09 Junho de 2021 | 09h26

Bolseiro angolano em Cuba acusado de matar o seu ex-professor - Julgamento começa na próxima sexta-feira

O Tribunal Provincial Popular de Havana, na República de Cuba, dá início, na próxima sexta-feira, 11, ao julgamento de um estudante angolano, bolseiro, de 28 anos, que se encontra detido desde o mês de Setembro de 2020, acusado pelas autoridades cubanas de ter assassinado o amigo e ex-professor, próximo da residência onde este vivia, soube o Novo Jornal junto da comunidade estudantil em Cuba.

Oi O jovem foi detido dois dias antes de o primeiro grupo de estudantes angolanos regressarem ao País, em Setembro do ano passado, e também fazia parte da lista, depois de terminar a sua licenciatura, sob responsabilidade do Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudo (INAGBE).

Armindo Leitão Jeremias, estudante finalista do curso superior de Sistema de Informação de Saúde, da Faculdade de Tecnologia da Saúde, da Universidade de Ciências Médicas de Havana, foi preso na sua residência depois de as autoridades cubanas suspeitarem ter sido ele o assassino do então amigo de 53 anos, o seu ex-professor de matemática, no 3º ano da sua licenciatura.

O caso de Armindo Leitão Jeremias preocupa a classe estudantil em Cuba, que assegura ser uma artimanha montada pelos cubanos para culpabilizar o jovem angolano que teve uma grande amizade com o professor cubano, que o tratava como um filho.

Ao Novo Jornal, o estudante finalista de Sistema de Informação de Saúde, Marcos Vilhena, amigo de ambos, salientou que Armindo Leitão Jeremias é acusado de ter matado o ex-professor por asfixia, simplesmente por ser a última pessoa a manter contacto com o mesmo, horas antes do infortúnio.

Segundo este ex-bolseiro, o que inquieta a classe de estudantes em Cuba é o silêncio da Embaixada de Angola naquele país, que nada faz para ajudar o jovem "detido sob fortes torturas psicológicas".

"O professor cubano vendia moeda estrangeira (dólares) a estudantes estrangeiros, e estava metido em muitos negócios, todos nós sabíamos disso em Cuba, ninguém sabia de facto onde ele encontrava esses dólares, até porque o mesmo nunca aceitou dizer onde ia buscar o dinheiro nem quis que alguém o acompanhasse", contou.

De acordo com Marcos Vilhena, o professor era uma pessoa boa para eles, e tratava o Armindo Leitão Jeremias como um filho, por isso duvida que seja ele o autor desde triste acontecimento.

"O corpo professor foi encontrado a 150 metros da casa do estudante angolano, e à mesma distância da casa dele, pois ambos eram vizinhos, por isso o acusaram de ter matado o professor", disse. E acrescentou: "Foi apenas isso, e as autoridades cabanas não encontraram outras provas mais. O Armindo Jeremias diz ser inocente".

Marcos Vilhena, que acompanhou a amizade dos dois em Cuba, teme o pior, caso o jovem angolano seja considerado culpado.

"Ele não tem ninguém lá para o apoiar, a Embaixada, que deveria fazer isso, não faz, por que razão, não sabemos. Em Cuba existe a pena de morte e isso preocupa-me, o que me entristece é o que Governo angolano já está a par da situação, mas nada está a fazer, mesmo sabendo dos riscos que o nosso irmão corre", desabafou.

O ex-bolseiro do INAGBE afirma que conviveu com o professor e com o acusado, e garante que ambos mantinham uma relação de pai e filho, por isso refuta a ideia de que teve um problema grave que resultaria em morte.


"É impensável dizer que existiu um problema gravíssimo entre os dois, ambos eram amigos e se ajudavam mutuamente, inclusive o professor ajudava mais, não só a ele mas a todos os estudantes da nossa faculdade, ele até nos emprestava dinheiro sem juros e dava-nos comida, não acredito que um angolano pudesse fazer mal àquele professor" salientou.


Marcos Vilhena diz estar muito chocado pelo facto de até aqui Armindo Jeremias ser apenas acompanhado por um advogado cubano, sem auxílio de um jurista angolano da Embaixada de Angola.


"O advogado que está com o processo é limitado porque pertence ao Estado cubano e é pago por eles. Eu acho que, pelo menos, devia ser acompanhado por em especialista da nossa embaixada, porque já havia um primeiro advogado, que por não ser pago abandonou o processo", concluiu.


Segundo este recém-licenciado, o principal constrangimento neste processo é a falta de informação por parte do Sector de Apoio aos Estudantes (SAE) em Cuba, que nada informa a respeito.


Sobre o assunto, o Novo Jornal tentou ouvir as explicações da Embaixada de Angola em Cuba, assim como o responsável do SAE, Eugénio dos Santos Novais, mas não obteve resposta.

Numa carta escrita na prisão e dirigida aos seus colegas de Cuba, a que o Novo Jornal teve acesso, Armindo Leitão Jeremias, o jovem angolano acusado de ter assassinado o professor cubano, realçou que vive momentos de horror na prisão.

"Irmãos, neste lugar as coisas são diferentes do mundo real. Não é fácil aceitar esta injustiça, aqui não existe paz. Estou a ser incriminado por um crime terrível que jamais cometeria, por nenhum preço do mundo. Não é e nunca será justo eu pagar por algo que não cometi", desabafa na carta.

Fonte: NJ